Poemas Quarentenais
POEMAS QUARENTENAIS
(Estes poemas foram escritos durante a quarentena causada pela pandemia de COVID-19, entre maio e junho de 2020)
I
Fala-se de uma fonte que secou,
Há rumores sobre uma terra estranha
Onde jaz um sol
Que jamais brilhou.
Ouve-se de uma selva
Banhada em silêncio,
Deserta de animais,
E de um mar que o vento esqueceu,
Com ondas para nunca mais.
Tudo isso é dito
Aos quatro cantos do mundo,
Mas minha alma já sabe,
Em menos de um segundo,
Que tudo isso é mentira.
Aquela fonte defunta
Canta em música cristalina
E o sol que ninguém viu
Deixa seu frio jazigo
E agora tudo aquece
Tudo enobrece
Tudo ilumina.
Na selva antes silenciosa
Vagueia uma ave formosa,
E aquele mar que o vento esqueceu,
Onde a onda arrefeceu,
Agora respira infinito
Na paz que ele se deu.
Na areia em pérolas
Uma renda de espuma ficou:
Uma promessa sem som
De que o mau sonho acabou.
II
Amo as tempestades súbitas.
Violentas.
A voragem do vento
Que de nuvens negras se alimenta.
A torrente sem freio
A desabar em águas turvas.
Lamacentas.
E que ao correr
Acorda cheiros submersos
De terra, flor e raiz
Como se o vasto universo
Estivesse agora por um triz.
E a natureza, titânica.
Feliz.
Enquanto eu,
Em meu refúgio de casa e jardim,
Penso que as águas revoltas
São em verdade um acalanto
Que os céus fizeram pra mim.
III
Há dias que parecem
Um todo-sem-fim de acordar,
Com um sol que chega de meia-vontade,
Metade ouro, Metade luar,
Anunciado por um galo gago
Cujo canto é um meloso bocejar,
Trazendo um tédio informe
Que a tudo espia,
Suspenso no ar;
IV
Num reino onde nunca se soube
O que há para se saber
De tempo e espaço,
Soube-se enfim
De uma outra raça humana,
De vidas vividas
Sob a algema e o compasso,
Que lhes emprestam todo dia
Um olhar vago e lasso.
E por sempre mirarem
A erva rala do chão,
Furtam-se ao esplendor
Da imensa concha azulada,
Para amassarem um pão
De pó e cinza: mais nada.
O que fazer destas vidas
A se arrastarem a esmo,
Enlutadas?
Para que fim quebrar algema,
Laço, esporão,
Se a esperança é muda,
A vontade inerte,
O desejo vão?
V
Pois sim...
Será forçoso escolher.
Porque a indumentária do ser
Redobra-se em pregas infinitas
Do sentir,
Do ter e do querer.
Porque o coração encolhe
Ao mais vago lume
De um padecer,
Mesmo que a mente afine,
Amole em chispas
A dura lâmina do saber.
Palmo a palmo
O horizonte da alma desdobra-se
Num afã de renascer,
Mas vem de longe a razão
A brandir foice, espada, esporão,
E num só fôlego sedento
Sorve toda a seiva do viver.
De minhas mãos trêmulas
Escapa a veludosa lâ
Com que o amor sonhei tecer.
Então, eis-me sozinho ao espelho,
Os olhos cingidos
No vão esforço de entender
Por que,
A cada átimo de vida,
Nos é forçoso Escolher.
VI
Um dia virá
Em que esquecerei o que já fui,
Verei o que agora sou,
E o que possa ser,
Não sonharei.
Mas por enquanto, espero.
Certamente,
Um dia virá
Quando a ave negra
Que vivo a espantar
Chegará de mundos ermos
Para em minha janela pousar.
Em suas asas haverá
O úmido negrume
De todos os abismos
Por onde passar.
Canções inauditas,
Gotas salgadas do mar,
Um eco no ar esquecido,
E o seu olho, a me escrutinar.
Não quero ouvir.
Não quero olhar.
Nada disso quero.
O dia sem dúvida virá
Para o meu certo acordar.
Mas no momento,
Espero.
VII
Em cada cova do chão
Uma semente esquecida;
Em cada lar dividido
Uma esperança de vida.
No vôo longo da ave
O sonho do horizonte;
No frio peito do homem
A eterna sede da fonte.
Na senda escura da mata
Vestígios de um caminho;
Na selva de vidro e prata
Saudades de um outro ninho.
Nos altos picos nevados
O sono da natureza;
Aos olhos do louco poeta
A assustadora beleza.
Se a voz de Deus é secreta
E o mundo um só torvelinho,
Deixai-me então ser poeta
Que cante a rosa e o espinho.
VIII
Enquanto chorava,
Ouvi a voz da saudade:
Um grunhido rouco,
Um bimbolar sem melodia,
Um canto torto, às avessas,
Que nem finda
Nem principia.
Enquanto amava,
Esqueci a tal saudade:
Refiz sua tosca harmonia,
Ajeitei seu toque bambo,
Dei-lhe um piparote daqueles!
E vi que enquanto sonhava,
Vivia!
IX
Como é bom viver de resto,
De sobras,
Da migalha que o dia espalha,
Do resquício de um vício
Que nada sabe
Da plenitude de qualquer virtude.
Viver do brilho pouco
De um sol que pouco se dá,
De uma sombra chinfrin,
De um punhadela de folhas secas
Que reconstruo em pétalas brandas
Só para mim.
Num canto qualquer,
Que bom se deparar
Com os poucos restos
Que sobram
De outros tantos dias que se foram,
Sem glória e sem glamour,
Deixando em toda parte
Seu pedregulho ínfimo,
Íntimo.
X
Entrou-me,
Pela memória adentro,
A cor de um dia
Como que de jejum,
Com um algo assim
De roseira desfolhada,
De madeira carcomida,
De um azedume de leite gasto,
De flores tristes, esquecidas.
E lá ficou,
Essa cor baça sebenta,
A vazar uma tinta rala
Que do meu sono
Se alimenta.
XI
Por tanto reger o impulso
Por pouco burir a paixão
Por tanto evadir o sentido
Por pouco enfeitar a razão.
Pelo sim. Pelo não.
Talvez fosse a hora marcada,
Quem sabe, a ventura esperada.
Quem dera fosse pura verdade
A tão sonhada felicidade.
Por sempre medir o afeto
Por nunca mirar o destino
Por muito a ter que esperar
O pouco que foste me dar.
Por ti, que jamais pôde ouvir
O tanto que eu tinha a falar.
Por partir. Ou ficar.
Portanto nada mais me perguntes,
Tampouco desdenhe minha dúvida.
Conquanto serei teu algoz,
Por vezes impávido, feroz.
XII
Se a mentira tem penas curtas,
Por que ainda lhe dão
Botas de sete léguas?
Se mais vale Um pássaro na mão
Do que dois voando,
Será que Deus hesitou
Em não dar asas a cobra?
Quem com porcos se junta,
Farelo come,
Mas há sempre alguém que divide
O pão que o diabo amassou.
Boa romaria faz
Quem em sua casa fica em paz.
Mas como santo de casa
Milagres não faz,
Peneira para tapar o sol
Não é nada eficaz.
Tudo que sobe desce,
Tudo que vai volta,
E quem quer passar
Pelo buraco de uma agulha,
Tem mais é que se estirar,
Direitinho.
Todo mundo sabe
Onde o sapato aperta,
Mas não leve seu costume à praça
E bote pimenta nos olhos dos outros
Pois nem todos gostam de refresco.
Antes de jogar pérolas aos poucos,
Não deixe a verdade
Cair em ouvidos moucos.
Porque de médico, poeta e louco,
É bom que cada um
Tenha um pouco.
XIII
Ninguém quer saber de você.
A ninguém interessa
Seu soluço
Seu sorriso.
Ninguém se espanta
Com seus olhos tão cheios
De lágrimas de não sei por que.
No elevador,
Ninguém fala com você
Sobre o tempo de repente tão bom,
Ou pergunta
Sobre o cachorrinho que você não tem.
De ninguém você ouvirá,
Na fila da mercearia,
Como os preços disparam
Sem que nem pra que.
Ninguém terá água na boca
Por aquele prato especial
Que você aprendeu a fazer
Num livro de receitas francês.
Ninguém se prepara
Para seu abraço,
Sua mão estendida,
Seu colo.
A ninguém comove
Seu dia de sol
Ou sua noite sem lua.
O jasmineiro tão florido,
O sabiá cantando uma cançãozinha
Tão esperta,
E ninguém espera por você
Em sua casa,
Em sua cama.
XIV
Não se deve esquecer a data
Não se deve deixar o posto
Não se deve forjar a conta.
Convém andar na linha
Melhor seguir o esquadro
É péssimo ser inconformado.
Não pega bem falar mal do vizinho
Não se conceba maltratar cachorrinho
Não é legal prender passarinho.
Não vale a pena cultivar inimigo
Não é de bom tom sujar seu abrigo
É o fim da picada trair o amigo.
Que ninguém tome cerveja à tarde
É de mau gosto perguntar a idade
É um desaforo sujar a verdade.
XV
Bem cedo,
Vi que o dia estava pronto.
Vi que a chuva estava pronta,
Fria e líquida
Em seu novelo de nuvens.
Bem cedo,
Vi que o sol esperava
Na barra do horizonte.
Vi também, bem cedo,
Que a mobília da terra
Estava limpa e nítida
Em seu costumeiro lugar.
Era cedo
Quando ouvi a valsa pontuada
Do único relógio da casa,
O ronronar de um gato errante,
O vizinho próximo demais.
Cedo, bem cedo,
Vi a lagartixa
A se requentar.
E vi,
Mais cedo do que deveria,
Que já nascera completo e certo,
Este dia.
XVI
Se fica o dito
Pelo não dito,
Quem sabe
O que ficará
Do que foi apenas
Sonhado?
XVII
Não adianta cortejar
O verso que não quer se dar.
Inútil emboscá-lo
Com vogais suspirosas,
Vesperais,
Ou com sílabas consonantais
Uma fina malha bordar.
O verso que não quer se dar
Tece sua própria alcova,
Onde se deixa ficar.
Tem pouca valia tentar burlar,
Na forja de som e tom,
O sendeiro nevoento
Do verso que não quer se dar.
Clarão, fulgor, aralume,
Centelha solta no ar,
Assim evade o poeta,
Em sua alcova de seda,
O verso que nunca se dá.
XVIII
Em nome do dia,
Que chegou assim
Tão de mansinho,
Trazendo seu solzinho morno
Sua brisa cuidadosa
E aquela nuvem floculenta
E tão branquinha.
Em nome deste corpo meu
Ainda fiel,
Ainda atento
Às minúcias da vida,
Com olhos ainda bons
Para ver o solzinho e a nuvenzinha,
E ouvidos que ainda ouvem
O farfalhar da brisa
No roseiral da vizinha.
Em nome desta casa minha
Onde não chega a feiúra do mundo,
Onde não entra o olho duro do inimigo
Nem as tantas faces do sofrer.
Em nome do tanto
Tão certo e tão justo
Que me foi dado
Sem eu nem ter esperado.
Em nome
Do tudo que tenho
Do nada que me falta.
XIX
Se algum dia eu for embora,
Sem nem sequer dizer adeus,
Junte tudo que sobrar
De tudo que um dia foi meu
E, uma lembrança por vez,
Refaça o tudo que agora é seu.
Não se pergunte of que você fêz
Ou o que em mim se perdeu.
Há um adeus para nunca mais
E outros tantos adeuses
De incompleto vulto,
De sufocados ais.
E há o rastro que todos deixam:
Um quarto escuro
Onde o rancor se esconde,
Onde os amores se queixam.
XX
Vidas,
Tal qual terras,
Mares,
Desertos,
Têm seu marco zero:
O súbito espanto
Antes do imediato
Começar,
Refazer,
Findar.
XXI
O anel que tu me deste
Não era vidro
Mas mesmo assim se quebrou:
Esmigalhou-se
Em puro pó.
E de memória,
Brilho,
Cor,
Nada ficou.
XXII
Um certo Fulano
Bateu à minha porta
E alardeou
Que tudo que eu quisesse
Me seria dado sem dor.
Bati-lhe a porta na cara
E tranquei-me em casa
Sem lhe dizer para que.
Um tal Beltrano
Sentou-se à minha mesa
E sussurrou-me as mil delícias
Que ele me faria, sem dor, viver.
Findei o longo repasto
E calei-me
Sem lhe dizer por que.
Um dito Sicrano
Insinuou-se em meu sono
E fez tilintar
Todas as chaves
Com que, sem dor,
Abriria os labirintos do meu ser.
Tranquei-me em minha alma
E refiz meu sonho perdido,
Sem lhe dizer com que.
A todos eles ouvi.
Suas vozes de púlpito,
Num sopro discerni.
Mas nada do que disseram,
Nunca entendi.
XXIII
Já que quem espera
Nunca alcança,
Melhor seria importunar
Amor e Fortuna
Com renovadas queixas,
Invocações,
Afagos e mimos.
Melhor seria
Não dar ouvidos
Aos seus caprichos,
Todos eles fraudulentos,
Todos eles espreitando
Em cantos secretos
Da insuspeitada vida de cada um,
Sempre prontos para sujar
O claro verde da esperança.
Mas já que há um infinito número
De universos possíveis,
Quem sabe se em algum deles
Amor e Fortuna
Vivem irmanados
Como divindades que nos afagam
Sem fraude
Sem inveja
Sem rancor.
XXIV
Que bem nos faria
Se uma certeza houvesse,
Dia após dia,
De que o sol afinal não morreria
Ao alvorecer do quinto bilhão de anos
Que o seu fim anuncia?
Ah, agora sim:
Uma razão existiria
Para cultivar o jardim.
XXV
Chegou como se chegasse do nada,
De sua rota esquecida, E
tonta de alegria,
Errou no cálculo da vida:
Num voo ébrio
Circundou a borda vulcânica
Na vertigem de um instante
E, já plena de mel e memória,
Ei-la mártir e escória
No vasto mar negro,
Escaldante.
XXVI
Há um segredo nos confins desta rua,
Há uma história que por aqui flutua,
Há uma de todos, a minha, a tua,
Pois que a verdade há de ser nua e crua.
Qualquer pesar a alma atura,
A erva amarga, a estrada dura,
A solidão na noite escura,
Pois que a esperança a sós perdura.
Dá-se ao amor o coração demente,
Empresta-se ao ódio a ferrugem da mente,
A ferro e fogo é o destino da gente,
Pois que de ambos guardamos a semente.
Há um deserto para os velhos amores,
Há um jardim para novos ardores,
E há um túmulo coberto de flores,
Pois que se há de enterrar as dores.
Em algum lance deste longo esporte,
Chega o azar de braços com a sorte,
E é inútil rezar à estrela do norte,
Pois que ninguém vai driblar a morte.
XXVII
Musa,
Minha Musa querida,
Permita-me que te peça
(não, implore)
Que jamais me abandones
Por estas sendas da vida
Onde o Tédio se esconde
Com suas mãos chumbentas
Prontas a derrubar
O vôo raso do meu coração.
Tenho uma simples poltrona
Num canto do meu quarto nu
Para acolher tua presença,
Tu que chegarás
(assim espero)
Com cuidados de mãe-ternura
Para meu sono enfeitar.
Minha Musa companheira,
Deixa-me ver-te em frente,
Atrás,
Ao lado meu
Nesta luta estradeira.
No arco daquela esquina,
Afasta-me daquele oco
Onde a Inveja se estira, supina,
Com seu olho de limo
E sua língua tão fina.
O, Musa-alvorecer
Das minhas mais doces fantasias,
Ensina-me a vislumbrar,
No amanhecer de cada dia,
O instante onde finda a dor,
Onde o amor principia.
Naquele vale infértil,
Livra-me do leito-lama
Onde o Ódio em crostas se derrama
E num berço assaz estreito dorme
Sonhando seu corpo assaz disforme.
Musa celeste,
Consolatriz,
Quando enfim chegar o cocheiro
Com seus cavalos
Do mais negro verniz,
Ajuda-me a embarcar sem saudades.
Mas deixa que fique meu verso
Com seu pulso,
Sua voz,
Seu matiz.
XXVIII
Quantas despedidas
Devemos ainda abraçar?
Quantos afagos
Numa prateleira empilhar,
Onde afetos antigos,
Cuidados, castigos,
Devem em fino pó repousar?
Quantos e tão vários gestos
Nos caberá ensaiar
No duradouro amanhã
Que entre o agora e o então
Se estenderá?
A quem confiar
O novelo de lembranças
Que será preciso guardar?
O novelo que um dia
O tempo virá desfiar
E novamente enrolar
Quando nos for concedido recomeçar?
A cada um se fará ver
O vário bordado do não-esquecer:
Novos retornos,
Renovadas despedidas,
O norte-sul
De cada vida.
XXIX
E já que o dia brotou propício,
Trazendo-me promessas
De como lograrei roer
O duro osso desse ofício,
Só me resta então Juntar a massa fina
Com que sonhar o prometido edifício.
Escreverei então um poema acadêmico.
Será ele robusto,
De caule e seiva?
Ou morrerá nascituro,
Amorfo e anêmico?
De um remotíssimo exílio
Chegam sinais, visões,
Intimações de ordem e desígnio.
Algo se esboça
Em puro som.
Raras rimas,
Ritmos a rigor,
Sílabas do mais fino tom.
Sobre a alvura lírea do papel
Avançam metáforas multicores
Em fino tropel;
Palavras desgrenhadas se desnudam
Em danças de sete véus;
Verso a verso
Um trêmulo arcabouço aparece.
Do lado escuro do espelho,
Uma miragem vivente
Que por si só se enaltece.
XXX
Quem sabe,
Um dia não será mais necessário
Invocar nenhuma divindade,
Porque um dia (quem sabe)
Suspeitaremos em nós
A própria invenção da verdade.
E então esqueceremos
Aquela ilusão maior
Em troca de ilusões menores
Que a cada dia sonharemos
Até sabermo-las de cor.
E assim iremos,
Barcos sem remos,
Ao ondular de um mar obscuro,
Atentos ao seu cuidado e ao seu terror.
Iremos com a inocência
Que forjamos de nós mesmos,
Costeando berço e túmulo,
A esmo.
XXXI
Naquela cidade por onde passei
(sonho... memória... tanto faz!)
As pessoas chegavam sorrindo,
Faziam-me um gesto fugaz,
Seguiam a passo de música
E pensei que não poderiam chorar. Jamais.
Mas era em pleno dia
Com um sol que tudo dourava,
Um ar morno que nos acolhia,
E um jardim florido
Que em cor e perfume se abria.
Naquela cidade que logo abandonei
(ontem... anos atrás... quem sabe?)
Toda a gente passava a soluçar.
Olhavam-me com um olhar audaz,
Corriam em busca de tudo
E pensei que não saberiam sorrir.
Nunca mais.
Mas era noite, a noite escura,
Com uma lua que a treva logo apagava,
Um vento ártico que como faca cortava,
E um descampado de ervas secas
Que a todo olhar se fechava.
Nesta cidade onde enfim vim morar
(em data que já nem sei recordar)
Vive um povo que nada tem a contar.
Passa o sol, passa a lua,
Passam todos por minha rua,
Mas nada tenho a perguntar.
XXXII
Por algum tempo,
Tudo isso será memória.
Por vezes, Esquecimento.
Por algum tempo,
Não traçarei
A jornada do belo hibisco amarelo
Em seu enlevo com o sol,
Com a chuva, com o vento.
Por algum tempo,
Não ouvirei o tic-tac lento
Do grande e velho relógio
A pontuar as tardes vagarosas,
A funda calma da casa
Que é verde, branca, rosa.
Por algum tempo,
Não dormirei em sublime solidão,
Sem lembranças do mundo,
Nem acordarei com o pássaro à janela
Ensaiando sua canção.
Por algum tempo,
Não serei embalado por magníficos temporais
Nem saberei como crescem os dias e as noites
Com seus ritmos ancestrais.
Por algum tempo,
Estarei longe de afetos
E cuidados de ninar.
Por algum tempo,
Ficarei a lembrar
O que será memória,
O que deve ser esquecimento.
XXXIII
Quando tudo isso passar,
Terei aprendido
Que, tanto quanto esperar,
Por vezes devemos também nos apressar.
Quando tudo isso passar,
Nada será tão pequeno
Que não mereça
O festejar de todos os meus sentidos,
Nada tão doloroso
Que não possa ser esquecido.
Quando tudo isso passar,
Não hesitarei em dizer
As necessárias palavras,
Aquelas que parecem viver
Engatilhadas na ponta da língua,
Nem permitirei
Que nada de bom e belo em mim
Morra à míngua.
Quando tudo isso passar,
Terei todo o tempo do mundo
Para a flor que demora em desabrochar,
Para o passarinho
Que parece nunca ter pressa de cantar.
Quando tudo isso passar,
Ficarei surpreso
De quanta gente haverá para abraçar.
Quando enfim tudo isso passar,
Viverei mais apressado do que nunca:
Não haverá mais tempo
Para sentar na varanda,
Fechar os olhos
E esperar.
XXXIV
Quando, então,
Chegará o momento
Em que deverei me libertar
Destas tantas coisas e mementos,
Do seu silêncio e esquecimento,
Deste acúmulo vário da vida
Na hora exata da despedida?
Quando, enfim,
Deixarei que as velhas lembraças
Inundem de uma vez a malha do tempo
E afoguem qualquer nova esperança
E dispersem algum novo desejo ao vento?
Quando, afinal,
Chegarão os infindáveis dias
Em que viverei sem nada fora de mim,
Sem um barco sequer no horizonte sem fim,
Vendo a vida deslizar na casa vazia
E eu repleto de tudo que, outrora, havia?
James Melo
Enviado por James Melo em 24/06/2023