SOTTO VOCE
Depois de tudo,
se ainda sobrarem palavras,
terei todo cuidado
ao dizê-las.
Procurarei instruir-me
em reverências;
aprenderei de novo
a pureza da honra
e do respeito,
que em outros tempos
não passaram de promessas.
Se sobrarem serão poucas,
eu sei.
Por isso mesmo,
serei cauteloso ao libertá-las,
ou lançá-las à rosa-dos-ventos
e deixá-las buscar outros portos
onde possam viver em paz
no eco dos seus sussurros.
Quisera que fossem
como jóias da coroa,
que resplandescem em segredo.
Ou como aqueles animais marinhos
que se incrustam devagar,
sonhando seus ninhos calcáreos
ao longo de mil anos.
Onde deverei guardá-las,
essas palavras
raras como tesouro sem mapa?
De que forma
irei acordá-las,
sabendo-as cativas
na penumbra dos meus pensamentos?
Terei eu a nobreza necessária
para trazê-las à tona,
para desencantá-las
do seu reino feérico?
Eu,
o guardador de palavras
cujo encanto maior
é nunca serem ditas.
James Melo
Enviado por James Melo em 30/06/2023
Alterado em 21/05/2024
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