James Melo

Versos e Reversos

Textos

MÚSICA DE CÂMARA
Mais uma vez,
à hora esperada,
foi-me dado reconstruir o dia.
Foi-me dado entender
que bastam poucos gestos
- e nenhuma palavra –
para reviver
o que há um momento atrás
nem sequer existia.

Por isso olho tudo devagar,
para que nada seja esquecido.
Os objetos silenciosos
que existirão em silêncio
muito além do que podem durar
minha lembrança,
meu contentamento,
minha vaga esperança.

Preciso andar devagar
para não perturbar
a fina poeira da memória.
Devagar devo seguir
a procissão das horas
que ressoam sem pressa
em algum lugar de mim,
há muito tempo escondido
em névoa,
perfume,
murmúrio,
rascunho do que um dia foi vivido.

À hora marcada,
percebo que as sobras de ontem
e de outros tantos dias
que se enfileiram a perder de vista
no túnel denso e sem nome
emaranham-se nas malhas deste novo dia
que emerge com sua própria cor,
recém-nascido e do mais fino teor.
E que à hora antecipada
pôe-se a tecer seu próprio labirinto
que será por sua vez descartado
em inúmeras gavetas secretas
no ébano do passado.

Por agora,
tudo respira quietude.
Ainda há tempo para agradecer
o estar aqui,
às margens desse rio
que flui sem destino algum,
mas que é pura dádiva,
milagre insuspeitado,
universo pleno,
inonimado.
James Melo
Enviado por James Melo em 10/07/2023
Alterado em 21/05/2024
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